“Eu tenho casa, tenho comida

Não passo fome

Graças a Deus

E no esporte eu sou de morte

Tendo isso tudo

Eu não preciso de mais nada

 

É claro

 

Se a luz do sol vem me trazer calor

E a luz da lua vem trazer amor

Tudo de graça a natureza dá

Pra que que eu quero trabalhar? ”

(Rapaz de bem, Johnny Alf, 1953)

 

                Gosto sempre de fazer um teste com pessoas que conversam sobre música. Pergunto sobre Johnny Alf. Caso a pessoa titubeie ou não conheça, encerro a conversa logo por ali.           É claro, escutava suas músicas muito mais enquanto estudava na Espanha do que no Brasil. Arrisco em dizer que nunca ouvi uma música cantada por Johnny Alf em alguma rádio brasileira. Por isso, a escolha de Alf para inaugurar esse espaço.

                Por outro lado, as letras de Johnny Alf foram exaustivamente regravadas e por muitas vezes fizeram parte de trilhas sonoras de novelas globais. A última foi na novela Babilônia (2015), onde Gal Costa cantou o tema “Ilusão à toa”. Para Nelson Valencia, último empresário do compositor, a regravação de suas músicas por artistas brancos era a saída para um artista negro ser reconhecido em um cenário dominado por brancos da zona sul carioca.               

 

 

 

 

O que é amar
Ilusão à toa

Alfredo José da Silva, nasceu em 19 de maio de 1929 no Rio Janeiro. Começou a tocar piano aos 3 anos de idade na casa onde sua mãe trabalhava como empregada doméstica. É um dos precursores da Bossa Nova e inspiração de Carlos Lyra, João Gilberto, Silvinha Teles, João Donato e de toda uma geração que espalharia o estilo pelo mundo.


 

Delicada, mansa, “suingada”, platônica, suave, contemplativa, cool, a atmosfera da bossa nova são alguns adjetivos utilizados para definir a música do rapaz de bem, que afirma que na verdade, era “rapaz pobre”.


 

Apesar de uma discografia curta, Alf, criou o estilo que não colocou fronteiras entre a música popular brasileira e o jazz ou o soul. Mesmo assim foi esquecido para a comemoração dos 50 anos de Bossa Nova que aconteceu na praia de Ipanema no Rio em 2008.

 

“Genialf”, como Tom Jobim o chamava, também foi a expressão utilizada pelo jornalista Pedro Alexandre Sanchez da revista Carta Capital, que fez a última grande reportagem sobre o artista, antes de sua morte em março de 2010, aos 80 anos.

 

Na ocasião, aquele que cantou sobre a solidão em “eu e a brisa”, vivia recolhido e em depressão em uma pensão para idosos em Santo André. Sem aposentaria, herdeiros ou parentes próximos vivos, havia dito, “eu consegui muita coisa, tenho fogão, geladeira.”

 

Aqui escutamos “O que é amar” gravada em 2006 para o Programa 7x Bossa Nova.

Alf está acompanhado de Idriss Boudrioua (sax alto), Marcos Souza (baixo acústico) e Ramon montagner (bateria).

A primeira gravação de “O que é amar” é de 1952, e foi interpretada por Mary Gonçalves.

 

E depois a sua canção mais regravada, “Ilusão à toa”.

 

Aprecie, “pois quem sabe o inesperado faça uma surpresa e traga alguém que queira te escutar”.

Johnny Alf, carioca, bossa nova, jazz, soul, brasileiro

Clóvis Cézar Pedrini Jr