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Em busca de Gardel, encontramos o inusitado... Conheça La Chacarita

Cemitério fica em Buenos Aires e guarda uma história surpreendente, que em muito lembra o caos de saúde pública vivida na atualidade. |

Estamos em Buenos Aires, capital da Argentina, cidade muito visitada por turistas de todo o mundo interessados em passeios inesquecíveis. Além da comida, dos costumes, praças, parques, igrejas, monumentos, há também por aqui uma grande procura pelas casas de tango. É tão tradicional que existem lugares com apresentações diárias e com sessões, quase sempre, lotadas.

Mas quando falamos em tango, é impossível não mencionar o mais famoso deles: La Cumparsita, que ganhou o mundo na voz de Carlos Gardel. E foi aqui na Argentina que ele passou a maior parte de sua vida. E esta matéria teve início com uma curiosidade em especial que surgiu em nossa primeira viagem a Buenos Aires, em 2017. Ao visitarmos o Cemitério da Recoleta, tradicional ponto turístico pela história de seus mausoléus, nos perguntamos:

Onde estaria sepultado Carlos Gardel?

E a resposta estava do outro lado da cidade.

Fachada do Cementerio de La Chacarita

La Chacarita


A história da humanidade é marcada por grandes avanços, mas também por doenças que afetaram milhares de pessoas e mudaram pra sempre os rumos, hábitos e costumes de sociedades inteiras. E isso também marca o início do Cementerio de La Chacarita, construído em caráter emergencial, para suprir a repentina demanda gerada pela Febre Amarela, que acometeu vários países no final do século XIX.

A febre amarela surgiu na África e chegou a América do Sul com os navios negreiros em meados do século XVII. O vírus se espalhava facilmente pela picada de um mosquito, e sua contaminação gerou grandes surtos em muitos países.

Se hoje ainda é um problema, imagine na época em que as condições sanitárias eram muito precárias, a medicina ainda muito arcaica e às vezes até repudiada pelo cidadão comum. Isso fazia com que esse tipo de doença matasse muita gente. E assim como no Brasil, na Argentina a situação atingiu em cheio a capital Buenos Aires, obrigando a cidade a construir um novo cemitério, em poucos dias, numa região afastada, cheia de chácaras, daí o seu nome em diminutivo - Chacarita.


História

O primeiro censo da Argentina, de 1869, segundo o Wikipedia, registrava que Buenos Aires tinha aproximadamente 177 mil habitantes. O Bairro de San Telmo e seus arredores, por exemplo, eram regiões valorizadas, onde residiam e trabalhavam pessoas importantes. A vida noturna também era agitada por ali e, não à toa, apresentou um dos maiores focos da doença.

No início do ano de 1871, começaram a ocorrer as primeiras mortes pela febre amarela no bairro de San Telmo, mas foram negligenciadas pelas autoridades locais. No final de fevereiro, 300 casos já haviam sido registrados, e o mês de março daquele ano iniciou com 40 mortes por dia, chegando a 100 no sexto dia do mês.

A incompreensão acerca das suas causas, levava as pessoas a acreditarem de maneira equivocada, que a transmissão se dava por contato humano, e em pouco tempo 1/3 da população havia abandonado a cidade.

Com os números crescendo em uma progressão geométrica, a primeira quinzena do mês de março de 1871 fecha com 150 mortos por dia, e logo passa para 200. Em abril esse número subiu para 500, até atingir o pico de 583 mortes diárias.

Um número assustador, se considerarmos que antes da doença a mortalidade diária média ficava em torno de 20 pessoas. E com o aumento do número de corpos, uma verdadeira corrida contra o relógio se iniciava, pois apesar do cemitério da Recoleta passar por uma ampliação na época, o Cemitério do Sul, que seria uma segunda opção, estava saturado.

Então em 14 de abril de 1871, é inaugurado o Cementerio de la Chacarita, construído em tempo recorde para absorver todo aquele estrago, causado pela peste que acometia a Capital argentina. Era uma área de 50 mil metros quadrados, ficava razoavelmente distante do centro da cidade, e recebia os caixões pelo tren de la muerte, apelido dado à linha de trem que encaminhava os futuros habitantes da necrópole.


A demanda era tanta, que os caixões eram empilhados aos montes na porta do cemitério, para então serem cremados. No auge do seu funcionamento, 564 corpos foram cremados em um único dia.

Depois de aproximadamente 14 mil mortes, em poucos meses, o frio do mês de junho de 1871 acabou com a população de mosquitos que transmitiam o vírus da febre amarela. Com isso, veio o alento do fim da epidemia. Só que a essa altura, o nefasto capitulo da história da bela Buenos Aires já havia sido escrito, com o sangue de quase 10% da sua população. Um número que afeta negativamente qualquer estatística urbana.

A Cidade dos Mortos

Atualmente, a necrópole é composta por três cemitérios; o da Chacarita, o britânico e o alemão. Ao todo, o complexo abriga os restos mortais de mais de um milhão de pessoas.

Segundo números registrados no livro Angeles de Buenos Aires, de Omar Lopes Mato, e Hernan Vizzari, no ano de 2011 o cemitério da Chacarita possuía 10.000 mausoléus, 105 panteões, 93.860 sepulturas e 350.000 nichos, distribuídos em 95 hectares, ou 950.000 metros quadrados. O Britânico contava com 11.000 tumbas distribuídas em 4 hectares ou 40.000 metros quadrados, e o alemão com 150 mausoléus em mais 4 hectares ou 40.000 metros quadrados.

O cemitério da Chacarita é dividido em 21 seções, ossários, galerias laterais e subterrâneas. Havia uma 22ª seção, que foi demolida há poucos anos, para incorporar o espaço de um parque.

É tão grande, que se você pensa em conhecê-lo em um dia, prepare-se para caminhar muito. Uma dica é ir de carro e, sim, é permitido circular de automóveis por aqui.

Caminhar pelo local traz uma estranha sensação, uma mistura de admiração pela manifestação artística presente em anjos e ornamentos. Mas ao mesmo tempo dá uma certa aflição, por observar que tanta beleza arquitetônica, hoje, caminha junto ao descaso.

Grande parte destes mausoléus foram construídos por famílias que, em vida, moravam próximas, eram vizinhas, e permanecem aqui representadas por toda eternidade. Alguns, apesar de pequenos por fora, tem dois ou três andares abaixo do nível da rua, que abrigam caixões sepultados de maneira aparente. E se isso já é macabro por si só, acrescente uma pitada de vidros quebrados, limo e teia de aranhas, e será inevitável pensar que alguns moradores da necrópole saem para dar um uma volta no meio da noite, ou agonizam na porta de seus mausoléus, aguardando que alguém os liberte da prisão eterna.


Celebridades

Aqui também ficam os restos mortais de importantes personalidades. Dentre elas, o foco da curiosidade da nossa visita. O Jazigo de Carlos Gardel.


O artista faleceu em 1935, mas seu corpo só chegou a este túmulo que conhecemos hoje, um ano e meio depois, em dezembro de 1936. Gardel faleceu num acidente aéreo e foi sepultado em Medellin na Colômbia, onde estava viajando em turnê. Mas ficou ali por aproximadamente seis meses. Depois disso, seu corpo foi exumado e há uma grande história que envolve esse funeral póstumo.


Para seu transporte até a Argentina, viajou mais de 12 mil quilômetros, passando por diversos povoados, até o Panamá, Nova York, Rio de Janeiro e Montevideo, até ser sepultado no panteão dos Artistas no Cemitério da Chacarita. E ainda assim, um tempo depois, recebeu este jazigo especial. É realmente uma história muito curiosa!

Além do "jardim"...


E continuando nosso passeio, ali próximo fica uma série de panteões, um crematório, e este grande parque de cruzes, com milhares de sepulturas tradicionais.

Há também uma galeria lateral enorme, com dois andares repletos de nichos que abrigam os restos mortais de diversas épocas.


No centro da planta do cemitério, há um local que, de longe, mais parece um grande jardim verde sem nada. Mas quando você chega mais próximo, é possível reparar esses dutos de ar saindo da grama, denunciam que há algo grande, abaixo de seus pés.


São dois andares de enormes galerias subterrâneas, com dezenas de corredores de um pé direito alto, abarrotados de gavetas, com os restos mortais de milhares de pessoas. É impressionante!

Galeria subterrâneas

O agente deteriorante aqui, não parece ser o vandalismo, mas sim a falta de recursos públicos suficientes para vencer a ação impiedosa do tempo. A umidade excessiva e alguns corredores com pouca iluminação trazem uma sensação decadente, tristeza e esquecimento. O silêncio mórbido, em contraste com alguns barulhos nefastos, dão a sensação de estarmos num labirinto sem saída, que chega a causar pânico em algumas pessoas.

Elevadores parados, mato crescendo e plantas apodrecendo num jardim triste e decadente entre os corredores. E assim, seguimos atraídos pelas galerias, em busca dos seus cantos e lugares mais obscuros, para saber se aquilo tem fim ou se há um portal – para romper a barreira do mundo dos vivos e dos mortos.

Nesses tempos de pandemia, a mídia tem chocado as pessoas, com a solução aparentemente improvisada, que alguns governos estão adotando para lidar com essa triste demanda. Mas a verdade é que apesar desse cemitério demonstrar que não se trata de um problema novo, humanidade nunca estará 100% preparada para enfrenta-lo, seja porque pensar em morte é algo extremamente desconfortável, ou seja porque, demanda recursos que não temos.


É possivelmente por causa desse lugar, ou para não ter de construir outra Chacarita, que a Argentina é tão radical nas medidas de enfrentamento da crise de saúde atual.

Nós poderíamos contar ainda muitas histórias sobre esse lugar, mas vamos deixar que você mesmo as conheça quando vier para a Argentina.


No site da prefeitura de Buenos Aires, você encontra informações sobre visitas guiadas e horários de funcionamento.

Cemitério guarda muitas histórias

Diante da pandemia de coronavírus em 2020, muitos cemitérios estão surgindo às pressas, em vários lugares do mundo, para dar conta do grande número de vítimas da doença. Uma história bem parecida com a que originou este cemitério. Confira nossas impressões no vídeo que produzimos e em nosso relato abaixo:


Assista ao vídeo e se inscreva em nosso canal.

Construído em caráter emergencial para suprir a repentina demanda gerada pela Febre Amarela, no final do século dezenove, o Cemitério da Chacarita, em Buenos Aires, tem uma história que muito se parece com o momento que estamos vivendo na atualidade.


Durante uma viagem de férias pela capital portenha, em 2017, fizemos um roteiro clássico de passeios, do Bairro de San Telmo, ao Obelisco, Palermo, Puerto Madero... e ao conhecermos os mausoléus do Cemitério da Recoleta, ficamos impressionados com a beleza do lugar.


Naquele momento, por acaso, surgiu o interesse de descobrirmos onde estaria sepultado o famoso cantor de tangos Carlos Gardel. E foi que nos falaram sobre a Chacarita.


Infelizmente, naquele momento, não teríamos tempo de ir até lá. Teria que ficar para uma próxima viagem! Pois bem, em 2018 retornamos a Buenos Aires e programamos no roteiro um espaço para conhecer esse lugar. E ao chegarmos lá, nos deparamos com um local gigantesco e surpreendente, marcado por uma história muito inusitada.


Este Cemitério foi inaugurado às pressas em 1871, a partir de uma epidemia de Febre Amarela, que vitimou milhares de pessoas. (Isso te lembra alguma coisa?)


Passamos então a buscar mais informações sobre essa história e, em nossa terceira viagem a Buenos Aires, em janeiro de 2020, fizemos novamente uma visita ao local para captar imagens na intenção de realizar um registro para nosso site de cultura. Afinal, a arte tumular é impressionante!


Conversamos bastante com uma amiga em Curitiba, especialista no assunto, a pesquisadora Clarissa Grassi, que já esteve neste cemitério em outra oportunidade e nos relatou experiências bem interessantes.


Obviamente que sequer saberíamos o que estava por vir neste ano de 2020. E agora, ao editar o vídeo, foi inevitável a comparação diante de tantas manchetes chocantes, com fotos de covas abertas às pressas em cemitérios de todo o mundo, em pleno século XXI. Parece que isso já vimos esse filme antes, não é mesmo?

O roteiro deste vídeo foi elaborado a partir de relatos, das constatações feitas nessas visitas, e de informações publicadas no livro "Angeles de Buenos Aires", de Omar Lopes Mato e Hernan Vizzari. Esperamos que vocês também gostem do resultado e possam compartilhar conosco suas impressões sobre o lugar.


Abraços, Lana e Paulo


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