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Heavy Metal transgênero: a trajetória de Mark/Marcie Free


“Nesse período eu aprendi que existe três grupos de pessoas no mundo, aqueles que gostam de você, aqueles que não gostam e aqueles que são completamente indiferentes a você”

Para muitos, aos quais me incluo, Mark Free é dono de uma das mais belas vozes do rock.


Não conhece? Então antes de continuar coloque essa playlist para tocar. Com certeza você irá dar algumas pausas na leitura para ir prestar atenção às músicas e às melodias gravadas por Free.

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Nascido em 12 de abril de 1954 na Indiana, Mark Edward Free começou a cantar profissionalmente aos dezenove anos. Dez anos depois, já em Las Vegas, monta sua primeira banda junto com o baterista Carmice Appice (ex-Ozzy Osborne), o King Kobra.


O sucesso mundial chega com o segundo álbum “Thrill of a Lifetime” (1986) e a música “Iron Eagle (Never Say Die)” trilha sonora do filme Águia de Aço (1986). A partir do terceiro álbum a banda continua com outro vocalista e Free se junta ao Signal. A banda lança apenas um trabalho o aclamado “Loud & Clear” (1989), uma obra prima do estilo AOR.

King Kobra — Iron Eagle (Never Say Die) (EMI, 1986)


Nos anos 90, década difícil para toda banda de hard rock devido à onda grunge, Mark Free com sua nova banda o Unruly Child lança o disco homônimo (1992). O grupo não chegaria a fazer nem cinco shows. Em 1993, Free se dedica em seu primeiro trabalho solo "Long Way from Love", o último como Mark.

Mark Free: Someday You’ll Come Running (Live At The Gods , 1993)


Casado, boa pinta e compositor Mark Free parecia viver o sonho americano dos anos 80 na Sunset Boulevard. Mas tal qual a música do Queen “I Want do Break Free”, Mark Free estava preso em seu próprio corpo.


Em 24 de junho de 1989, Mark ainda se casa pela segunda vez, com a radialista de rock Laurie Richardson. O casamento dura apenas dois anos.

“Ela foi o último caso de amor que tive com outro ser humano”, afirmou anos depois.

Até hoje eles não se falam, por escolha de Laurie.

“O que me faz acreditar que apesar de eu a ter amado ela nunca realmente me amou, o que me machuca muito”, confessou Free.

Signal — Does it Fell like Love (EMI, 1989)


Em novembro de 1993 vem a notícia que Mark Free não existia mais, em seu lugar estaria Marcie Free. Logo depois do anúncio da mudança de sexo o mundo musical de Mark desmorona rapidamente. Lembre que era a década de 90 e o mundo não parecia estar preparado para isso e nem dava mais muita bola para o melodic rock.


Em 1995, Marcie Free se muda para Michigan para ficar perto da família, se afasta do mundo da música e passa a trabalhar em uma empresa de hipotecas.


“Eu achei que nunca mais voltaria a cantar quando comecei a encarar de frente meus problemas de gênero”, disse em uma da raras entrevistas em que fala sobre o assunto.

Até mesmo antigos companheiros de banda não sabiam do fato. Carmice Appice disse anos depois que ainda “chama Mark/Marcie de ele (risos)". Appice conta que a encontrou tempos depois que soube da mudança de sexo através de um amigo.


"Fui com minha esposa e meus filhos, então ele entrou, sentou-se e disse com aquela voz grossa 'Oi!' Eu disse: 'Ei Mark, o que houve?' Ele apenas disse: 'Aposto que você está um pouco surpreso!' 'Sim, mas talvez não! Você usava mais maquiagem quando estava no King Kobra'".

Appice reformulou o King Kobra nos anos 2010 sem Marcie, pois segundo Appice, "daria um clima ruim com ela". Apesar disso, nos anos 1990 ela continuou gravando em estúdio, mas se afastou dos palcos. “Não é todo dia que você um homem mudar de sexo e continua aos olhos do público, ainda mais um que era reconhecido por cantar um rock bem masculino”.


Em 1998 o Unruly Child lança seu segundo disco, “Wainting for the Sun” e em 2003 o terceiro “UCIII”, sem Marcie nos vogais. Marcie Free por sua vez lança dois discos solos sob o codinome “Tormented” (atormentado em português) que são lançados apenas no Japão e alguns países da Europa.

Álbuns gravados por Marcie Free de 1985 a 2020.


Durante décadas Marcie enfrentou seus dilemas após a cirurgia com muita terapia e chegou a pensar em suicídio muitas vezes. “Foi coragem ou desespero? Eu não tinha escolha, na verdade. Se eu continuasse a viver como Mark eu já estaria morto, com certeza. Mas depois de todos esses anos tudo tem sido gratificante de muitas maneiras”, disse.


“Nesse período eu aprendi que existe três grupos de pessoas no mundo, aquele que gostam de você, aqueles que não gostam e aqueles que são completamente indiferentes a você”, disse Marcie.


"Eu alcancei paz de espírito, pode ser um conceito simples para a maioria das pessoas, mas não quando se vive dentro de um corpo que você sente ser de outra pessoa. Quando eu atingi essa paz, imediatamente saiu de mim o desejo de ser famoso, adorado e aceito por todos".

Em uma das poucas entrevistas para um site do Brasil, Marcie assume toda sua fé e religiosidade. Ela afirmaria que "nunca mudaria minha voz cirurgicamente, como muitos fazem. A música e minha voz são presentes de Deus ".


Em 2010, a gravadora italiana Frontiers Records propõe um contrato ao extinto Unruly Child. Depois que Marcie Free aceita, todos os outros membros originais também se juntam à banda.


O resultado, até agora, são três discos de estúdio impecáveis (Worlds Collide, 2010; Can't Go Home, 2017 e Big Blue World, 2019), um registro ao vivo (Unhinged — Live from Milan, 2018) e o relançamento dos álbuns originais da banda além das demos guardadas por Marcie Free ao longo dos anos (Reigning Frogs — The box set collection, 2017). A música "You Don’t Understand" é um desabafo de Marcie sobre todo a trajetória e de como desistiu de tentar explicar pelo que passou. A voz vibrante e harmoniosa de Free continua ali, mais livre do que nunca.

Unruly Child — To Be You Everything ( Live from Milan, 2018)


Unruly Child — Very First Time (2010)


Clóvis Cézar Pedrini Jr

Mestre e Doutorando em Comunicação pelas Universidades de Sevilla-Málaga-Huelva-Cádiz-Andalucía, Espanha. clovis.cezarpedrini@alum.uca.es

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