Monga: A Mulher Gorila” transforma antiga atração de parque em espetáculo de teatro lambe-lambe
Nova criação da Les Paranauês Cia Criativa estreia no Festival da Primavera 2026 e leva para uma caixa em miniatura a misteriosa metamorfose que marcou gerações nos circos e parques de diversões.

Uma das mais populares atrações dos antigos parques de diversões brasileiros reaparece em Curitiba sob uma nova perspectiva. “Monga: A Mulher Gorila”, novo espetáculo da Les Paranauês Cia Criativa, reinventa a célebre metamorfose da mulher em gorila em uma experiência de teatro lambe-lambe, na qual cada espectador se aproxima de um pequeno visor para descobrir, individualmente, o segredo guardado dentro da caixa.
Integrante do Festival da Primavera 2026, o espetáculo terá apresentações no dia 10 de outubro, às 11h e às 14h, e no dia 11 de outubro, às 10h, no Teatro do Memorial da Cidade, em Curitiba. A montagem tem classificação livre e dialoga tanto com o imaginário infantil quanto com a memória afetiva dos adultos. O Festival da Primavera Curitiba é organizado pela prefeitura e espalha cultura por parques, bosques, praças e outros espaços da cidade.
O trabalho da Les Paranauês parte de uma inversão de escala. Se as tradicionais Mongas, King Kongs e outras atrações de feira apostavam no gigantesco, nas jaulas e no impacto visual à distância, o teatro lambe-lambe conduz esse universo para o minúsculo. O espectador deixa de fazer parte de uma multidão e passa a observar a transformação sozinho, a poucos centímetros da cena. O assombro permanece, mas se converte em uma experiência íntima, com sessões de aproximadamente três minutos.
Esboslávia
Na história, um misterioso gabinete vindo da fictícia Esboslávia chega à cidade trazendo a linda jovem Petruska Strudel e o segredo de sua transformação. Do lado de fora da caixa, a anfitriã Madame Sauerkraut, interpretada por Samara Rocha, recebe o público acompanhada da serpente Pumpernickel, enquanto o funcionário Senhor Eisbein, vivido por Laércio Amaral, cuida do rigor da exibição. Dentro do visor, a atmosfera muda: o público entra no universo particular da jovem Petruska Strudel e presencia sua metamorfose.
“A montagem recupera a linguagem dos antigos gabinetes de curiosidades, parques itinerantes e feiras de variedades, mas desloca o foco do susto e do sensacionalismo para o encantamento, o humor e a transformação”, revela Samara.
A estética do espetáculo dialoga com a linguagem visual das revistas pulp das décadas de 1920 a 1950 e com os antigos cartazes de circo e atrações de feira. O trabalho investe na combinação de cores intensas, dramaticidade e mistério e no imaginário do horror fantástico.Essa atmosfera continua do lado de fora do visor. A espera pela sessão também é tratada como parte do espetáculo: a mediação de Madame Sauerkraut, a presença da cobra Pumpernickel, os objetos, banners e elementos inspirados nos antigos circos criam uma pequena feira em torno da caixa.
Ilusionismo e automação
Dentro da pequena caixa está um dos principais desafios técnicos da montagem. A transformação utiliza o clássico efeito óptico Pepper’s ghost, técnica de reflexão associada historicamente aos espetáculos de variedades, miniaturizada para o teatro lambe-lambe.
“Vidros, iluminação, bonecos e diferentes planos visuais são combinados para fazer a figura humana desaparecer e dar lugar à fera diante dos olhos do espectador”, explica a atriz.
O recurso tradicional encontra uma tecnologia contemporânea: um sistema de automação controla as transições de iluminação necessárias ao efeito. A paisagem sonora também participa diretamente da imersão, com o público utilizando fones de ouvido durante a experiência individual.
A obra também estabelece um diálogo com a psicologia analítica de Carl Jung. “Em vez de apresentar a Monga apenas como criatura ameaçadora, a montagem procura olhar para a coexistência entre aquilo que se mostra e aquilo que permanece oculto”, afirma Laércio, que, além de ator, é psicólogo.
Outra referência da pesquisa é a história de Julia Pastrana, artista, cantora e bailarina mexicana que viveu entre 1834 e 1860. Ela foi exibida em espetáculos de curiosidades em razão de sua aparência. O projeto evoca essa memória para questionar a tradição histórica de exposição de corpos considerados “exóticos” e substitui o corpo real pela linguagem do teatro de formas animadas e pelo ilusionismo.
Les Paranauês
Fundada em Curitiba, em 2018, por Samara Rocha e Laércio Amaral, a Les Paranauês Cia Criativa desenvolve trabalhos em teatro, palhaçaria, formas animadas e produção cultural. “Monga: A Mulher Gorila” dá continuidade à pesquisa da companhia no teatro lambe-lambe, aprofundada recentemente no espetáculo “Peregrinos”.
O projeto foi concebido a partir de princípios de acessibilidade integrada, prevendo recursos como tour tátil, interpretação em Libras e audiodescrição.
SERVIÇO:
Monga: A Mulher Gorila
Datas: 10 de outubro, às 11h e 14h; 11 de outubro, às 10h
Local: Teatro do Memorial da Cidade – Memorial de Curitiba
Experiência individual: aproximadamente 3 minutos
Duração total da programação: aproximadamente 70 minutos
Classificação: LivreAcessibilidade: tour tátil, audiodescrição e interpretação em Libras.
Concepção e realização: Les Paranauês Cia Criativa
















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